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Não apenas o controle, mas a erradicação da malária está mais próxima.

A possibilidade veio graças a um estudo feito nos EUA que utilizou uma revolucionária técnica de “edição de genes”.

Já faz alguns anos que foi demonstrado ser possível modificar o mosquito transmissor da doença para se tornar resistente ao parasita que a causa; a grande questão era como espalhar essa mudança genética entre os insetos na natureza. Graças à técnica conhecida como Crispr-Cas9 isso passou a ser possível.

O estudo, encabeçado por Anthony James, da Universidade da Califórnia em Irvine envolveu introduzir e propagar um gene com ação dual nos mosquitos da espécie Anopheles stephensi, responsável por 12% da transmissão da doença na Índia.

Os alvos desse genes são duas proteínas essenciais produzidas durante o estágio infectante do parasita conhecido pelo nome científico Plasmodium falciparum.

A eficiência na propagação foi de 98% na linha de células germinativas (como óvulos e espermatozoides), isto é, capazes de transmitir informação genética para prole.

Nos insetos, simplificadamente, a engenhoca molecular funciona assim:

1) O ponto de partida são mosquitos geneticamente alterados conseguirem se livrar dos parasitas causadores da malária;

2) O problema é que ao cruzar com mosquitos selvagens, os mosquitos filhos serão, na melhor das hipóteses, híbridos, com um gene “exterminador” de parasitas e outro selvagem (normal), ou seja, parte da terceira geração perderá a capacidade de lidar com os parasitas (por herdar dois genes selvagens);

3) A ideia é manter as duas cópias alteradas, mesmo que o mosquito só tenha uma a princípio e é aí que entra a novidade: os insetos foram programados para sempre copiarem o gene “exterminador” no lugar do gene selvagem;

4) Basicamente é uma automatização da edição genética. Dessa forma, é possível perpetuar o gene “exterminador” e espalhá-lo na população selvagem com grande eficiência; reduzindo ou até acabando com a transmissão da malária.

O artigo com os achados foi publicado recentemente na revista científica “PNAS”.

Estudos com a técnica Crispr-Cas9 em células germinativas são polêmicos, pois com ela passou a ser possível “editar genes” em humanos. Há alguma relação, ainda que distante, com a eugenia, pseudociência que sugeria melhorar a espécie humana permitindo só a reprodução de pessoas “perfeitas”.

Bem menos preocupante, e eticamente aceitável, é empregar a técnica para corrigir mutações em pacientes doentes.

Por exemplo, pesquisadores no Reino Unido curaram uma criança de um ano de idade de leucemia ao editar os genes de células-T, que participam do sistema de defesa do organismo.

Em outro exemplo, três equipes independentes usaram a Crispr-Cas9 e mostraram que foi possível tratar uma distrofia muscular em camundongos (com isso abrindo a possibilidade de tratar uma doença hoje incurável em seres humanos).

MILHÕES DE MORTES

A malária já chegou a causar, em anos relativamente recentes, a morte de mais de um milhão de pessoas por ano, especialmente na África, ao sul do Saara.

Em 2014, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a doença matou 580 mil pessoas. Um conjunto de medidas tem diminuído o número de mortes, como novas drogas, uso de mosquiteiros com inseticidas e mudanças no ambiente que impedem a proliferação de mosquitos.

Desde 2001, afirma a OMS, em torno de 3,3 milhões de vidas foram salvas graças a essas medidas, mas a doença continua longe de estar sob controle. Mosquitos transgênicos poderiam fazer a balança pender a favor do controle, ou mesmo erradicação.

Um consenso entre os pesquisadores da área é que não existe uma solução mágica para o problema, mas que para dominar a malária é preciso lutar em várias frentes, e a edição gênica com Crispr-Cas9 é a nova estrela do time.

ORIGENS

A técnica surgiu por acaso, quando se notou uma até então desconhecida defesa das bactérias para impedir a contaminação por vírus.

Descobriu-se que a bactéria captura parte do material genético do vírus e o insere no seu próprio DNA, o que funciona como uma “vacina” contra o invasor.

Para fazer isso, a bactéria usa enzimas (nucleases) como tesouras genéticas para editar o DNA. Depois, essas enzimas “picotam” os vírus caso um deles reapareça.

A defesa natural da bactéria virou uma técnica de laboratório para editar genes a partir de 2012 e vem sendo aperfeiçoada desde então.

De certo modo, a “estratégia” se assemelha à utilizada pelo exército americano na Guerra do Vietnã: “seek and destroy” (“buscar e destruir”) -só que com melhor sucesso.

A Crispr-Cas9 vem sendo apontada como grande promessa e foi chamada de revolucionária pela revista “Nature” e eleita “técnica do ano” de 2015 pela revista “Science”.

Colaborou GABRIEL ALVES

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2016/01/1733136-edicao-genica-corta-e-muda-dna-para-combater-doencas-como-a-malaria.shtml